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Mensagens

Nos tempos idos do outro Senhor

  Saudade. Esse fenómeno tão nacional e tão intenso, que mereceu, na língua de Camões, uma palavra que abarque, em três simples sílabas, a totalidade da força poética e prosaica de um sentimento tão difícil de definir.  O povo português, que, muito embora, ao longo da sua extensa história, colecione tantos feitos dignos de nota que são verdadeiramente merecedores de nostalgia e que serviriam de exemplo para os igualar ou superar, tem o triste hábito de expressar a sua saudade relativamente a eventos passados que há muito deviam estar enterrados e consensualmente aceites como prejudiciais para o país, no geral, e para uma expressiva maioria dos seus habitantes, em particular. Muito embora respeite quem deseje, por genuína vontade, por malicioso interesse ou por desconhecimento da total envergadura do podridão que grassava, saudar tempos idos e bafientos, essas recordações com um travo a morte, a tristeza e à mais profunda miséria, não posso, em boa consciência, aceitar que se d...
Mensagens recentes

O progresso que nos consumiu

  Desde o surgimento do século XX até aos dias atuais, a relação entre o Homem e a tecnologia tem sido marcada por um misto de fascínio, euforia e inquietação.   Na Ode Triunfal de Álvaro de Campos (um dos vários heterónimos de Fernando Pessoa), celebra-se de uma forma um tanto quanto profunda o aparecimento da modernidade industrial, exaltando tudo o que era desta época (máquinas, energia e velocidade) como se fosse símbolo do progresso máximo humano. Este entusiasmo febril reflete de forma admirável a atual sociedade contemporânea dominada por Inteligência Artificial, redes sociais e avanços estupendos no campo da tecnologia. A comparação entre a exaltação da máquina na Ode Triunfal e o encanto tecnológico da atualidade, abre portas para uma reflexão sobre os limites do progresso e a fragilidade da nossa identidade.   Nós, meros seres humanos, sentimos um grande entusiasmo por tudo aquilo que nos provoca picos de felicidade, viciando-nos. No entanto, o rápido...

O Medo de Falhar Como Projeto Educativo

Diz-se frequentemente que a escola prepara os jovens para a vida. Mas basta observar a forma como o erro é tratado para perceber que essa afirmação é, no mínimo, ilusória. O sistema educativo não ensina a falhar, a recomeçar ou a ajustar caminhos. Ensina a evitar o erro a todo o custo. E esse medo não é acidental: é produzido, reforçado e normalizado.  Desde cedo, os alunos aprendem que falhar tem consequências que ultrapassam a aprendizagem. Uma nota negativa não é apenas um sinal de dificuldade; torna-se um rótulo. Uma  reprovação não é encarada como parte de um processo, mas como um atraso quase moral. Um ano fora do "percurso normal9 é tratado como desperdício. A mensagem é clara, mesmo quando não é dita em voz alta: errar compromete o teu valor.  A escola organiza-se em torno da lógica do acerto. Programas extensos, avaliações constantes, médias que decidem futuros. Pouco importa como se chegou à resposta, o que se aprendeu no processo ou que dificuldades foram enfre...

Trabalhar para viver, não para o Estado

  Se já recebeste o teu primeiro salário, sabes bem a sensação: olhas para o recibo e pensas “espera aí, quem é que ficou com metade disto?” A resposta é simples: o Estado. Antes de o dinheiro chegar à tua conta, já uma boa fatia foi embora em impostos e contribuições.  E não penses que acaba aí. No café, no passe, no supermercado, em quase tudo o que compras, lá está o IVA. Ou seja, mesmo depois de te pagarem menos, ainda és taxado outra vez quando vais gastar o pouco que sobrou.  O problema é que, apesar desta carga fiscal absurda, os serviços que deviam funcionar… não funcionam. Tens amigos a esperar meses por uma consulta no SNS. Professores que faltam nas escolas. Transportes públicos que falham. Burocracia que parece não acabar. A pergunta é inevitável: se já pagamos tanto, porque é que recebemos tão pouco?  Para quem é jovem, isto torna-se sufocante. Como é que alguém consegue juntar dinheiro para sair de casa dos pais, lançar um negócio, ou simplesmente viver...

O Fantasma do Comunismo e o Perigo Real: A distorção que marca o debate político português

  Durante décadas, o debate político português tem sido condicionado pelo medo persistente de  um comunismo que nunca governou o país, ao mesmo tempo que minimiza sinais de erosão  democrática bem mais reais. Esta distorção histórica e política continua a moldar perceções,  discursos e prioridades nacionais, revelando fragilidades profundas na nossa cultura  democrática.  O debate político português continua marcado por uma assimetria que já perdura há  décadas. Medidas sociais ambiciosas e progressistas são rapidamente rotuladas de comunistas,  enquanto discursos iliberais e nostalgias autoritárias passam com frequência por normais ou  inofensivos. É como se o país continuasse a temer um fantasma que nunca o governou.  Tememos um comunismo que nunca existiu em Portugal e, ao mesmo tempo, convivemos  quase sem sobressalto com sombras autoritárias que marcaram a nossa história recente. Este  desequilíbrio não é apenas retórico. ...

O poder autodestruidor da democracia

Desde que existe democracia, sempre existiram forças que a pretenderam derrubar, por, de entre muitas razões, não concordarem com a sua forma de encarar o poder, que reside nas pessoas (do grego demos [pessoas/povo] e kratos [poder/governo]). Exemplo disto, temos a democracia da Grécia Antiga, com os seus oligarcas a desejarem um poder ainda mais restrito, Hitler na Alemanha, Mussolini na Itália, Franco na Espanha, Salazar em Portugal, etc.  Porém, todos estes exemplos, mesmo que tenham acontecido no século passado, parecem-nos distantes, logo, vão perdendo a atenção da sociedade comum. No entanto, mesmo não sabendo ao pormenor estes acontecimentos históricos destruidores ou ameaçadores do regime democrático, as pessoas conhecem-nos na sua forma mais básica, e é por isso que, atualmente, os ataques à democracia se fazem de forma diferente, de uma maneira mais robusta, para que não haja desconfianças, aproveitando-se muitas vezes do próprio regime para o fazer.  Contudo, sabemo...

A Liberdade morreu

  “O crime de pensar não implica a morte. O crime de pensar é a própria morte.” George Orwell Vivemos num mundo onde desde pequenos estamos habituados a possuir liberdade de expressão, imprensa e até política e devido a isso assumimos todos estes privilégios como garantidos o quais nunca ninguém ameaçaria. Mas, os tempos mudaram, assistimos hoje ao maior ataque á liberdade de expressão e individual dos últimos tempos. A história repete-se mas não damos conta disso, foi com o mesmo pretexto de segurança e proteção das pessoas que surgiram as policias políticas da Alemanha Nazi de Hitler, ou da Itália Fascista de Mussolini e a União Soviética de Stalin e agora, a UE vestindo uma pele de cordeiro faz a mesma promessa, proteger as crianças hoje para controlar discursos amanhã. Mas não fica por aqui, juntando a esta ideia autoritária do Chat Control vem a inovação tecnológica das transações financeiras os CBDCS, uma moeda digital controlada diretamente pelos bancos centrais, onde os mes...