Saudade. Esse fenómeno tão nacional e tão intenso, que mereceu, na língua de Camões, uma palavra que abarque, em três simples sílabas, a totalidade da força poética e prosaica de um sentimento tão difícil de definir. O povo português, que, muito embora, ao longo da sua extensa história, colecione tantos feitos dignos de nota que são verdadeiramente merecedores de nostalgia e que serviriam de exemplo para os igualar ou superar, tem o triste hábito de expressar a sua saudade relativamente a eventos passados que há muito deviam estar enterrados e consensualmente aceites como prejudiciais para o país, no geral, e para uma expressiva maioria dos seus habitantes, em particular. Muito embora respeite quem deseje, por genuína vontade, por malicioso interesse ou por desconhecimento da total envergadura do podridão que grassava, saudar tempos idos e bafientos, essas recordações com um travo a morte, a tristeza e à mais profunda miséria, não posso, em boa consciência, aceitar que se d...
Desde o surgimento do século XX até aos dias atuais, a relação entre o Homem e a tecnologia tem sido marcada por um misto de fascínio, euforia e inquietação. Na Ode Triunfal de Álvaro de Campos (um dos vários heterónimos de Fernando Pessoa), celebra-se de uma forma um tanto quanto profunda o aparecimento da modernidade industrial, exaltando tudo o que era desta época (máquinas, energia e velocidade) como se fosse símbolo do progresso máximo humano. Este entusiasmo febril reflete de forma admirável a atual sociedade contemporânea dominada por Inteligência Artificial, redes sociais e avanços estupendos no campo da tecnologia. A comparação entre a exaltação da máquina na Ode Triunfal e o encanto tecnológico da atualidade, abre portas para uma reflexão sobre os limites do progresso e a fragilidade da nossa identidade. Nós, meros seres humanos, sentimos um grande entusiasmo por tudo aquilo que nos provoca picos de felicidade, viciando-nos. No entanto, o rápido...