Avançar para o conteúdo principal

O poder autodestruidor da democracia



Desde que existe democracia, sempre existiram forças que a pretenderam derrubar, por, de entre muitas razões, não concordarem com a sua forma de encarar o poder, que reside nas pessoas (do grego demos [pessoas/povo] e kratos [poder/governo]). Exemplo disto, temos a democracia da Grécia Antiga, com os seus oligarcas a desejarem um poder ainda mais restrito, Hitler na Alemanha, Mussolini na Itália, Franco na Espanha, Salazar em Portugal, etc. 

Porém, todos estes exemplos, mesmo que tenham acontecido no século passado, parecem-nos distantes, logo, vão perdendo a atenção da sociedade comum. No entanto, mesmo não sabendo ao pormenor estes acontecimentos históricos destruidores ou ameaçadores do regime democrático, as pessoas conhecem-nos na sua forma mais básica, e é por isso que, atualmente, os ataques à democracia se fazem de forma diferente, de uma maneira mais robusta, para que não haja desconfianças, aproveitando-se muitas vezes do próprio regime para o fazer. 

Contudo, sabemos que o mundo já viu implantados vários tipos de regime, o que prova que a Humanidade, em termos políticos, demonstra ou devia ter demonstrado avanço. Tendo isto em conta, coloco as seguintes questões: será a democracia, tendo por ideia que os seres humanos ao longo da história têm, supostamente, evoluído na construção dos seus regimes, o melhor regime? E se a resposta é não, porque cada vez mais se anula as forças ou ideias que pretendem mudar o regime atual em que vivemos? Estaremos nós na fase do progresso político, em que não queremos qualquer progresso e viver para sempre neste regime? Como sabemos que os que querem mandar abaixo a democracia, e tendo por princípio que a teoria é diferente da prática, não irão caminhar a sociedade para um maior progresso?

Pois bem, a todos os que leem este artigo, peço uma reflexão imparcial das questões colocadas, ignorando, por uma vez, o espectro político com que se identificam mais, assim como o partido político. 

Ora, não faço esta reflexão apenas porque tenho vontade de a fazer, também, mas sobretudo porque na atual sociedade portuguesa existem forças políticas, votadas democraticamente pelo povo português, acusadas de “fascistas”, “destruidoras da democracia”, “imundície política”, entre muitas outras características. No entanto, o curioso não é só isto, é que os que encaram desta forma tais forças, são muitas vezes os supostos grandes defensores da democracia. Mas se são grandes defensores desse regime, porque descredibilizam forças votadas pelo povo (volto a relembrar a etimologia da palavra democracia)? A mim parece-me que, para algumas destas pessoas, a democracia só é válida quando funciona para o “lado certo”, ou seja, para o lado que lhes é favorável e/ou conveniente. Porém, um verdadeiro democrata é o que entende que todas as forças são válidas, no momento em que são reconhecidas pelas instituições (no nosso caso, o Tribunal Constitucional) e posteriormente votadas pelo povo português, pois é nele que o poder reside, mesmo que essas forças sejam ameaçadoras para a democracia. Com isto, um verdadeiro democrata é aquele que entende que a democracia tem o poder para se autodestruir, e se o povo assim o quiser, assim será o destino da democracia - o fim. 

Para terminar, considero importante realçar que esta reflexão e análise são feitas por mim, apartidário, de forma imparcial.


Afonso Ferreira

Estudante de Direito



Comentários

Mensagens populares deste blogue

Mariana Mortágua ou Fernão de Magalhães. Qual o mais revolucionário?

Como dizia Miguel de Cervantes: “Não existe maior loucura no mundo do que um homem entrar no desespero.” Parece-me que a política portuguesa colocou Mariana Mortágua num estado de total desespero. Aceitar viajar duas semanas ao lado de Greta Thunberg é, talvez, a maior prova de insanidade. “Navegar é preciso.” Foi com este mote que Mariana Mortágua encerrou o seu discurso. E, como habitual, os dogmas não faltaram. “ The world is being saved by the Palestinian people. ” Foi a frase que ficou. Não só pela demagogia, mas também pelo evidente aproveitamento político. E, com isso, fica a pergunta para a grande navegadora Mariana Mortágua: estamos a ser salvos de quê? Não vi nenhum palestiniano a apagar incêndios. Não vi nenhum palestiniano a defender o Estado português. Mas, se há algo que não vi — nem vejo — é um povo livre em Gaza. Para Mortágua, esta viagem é um autêntico tiro nos pés. É a prova da hipocrisia — mas não acaba por aqui. Nas mesmas declarações, afirmou: “We are a superpower...

O “algoritmo P” e o caso Felca: a adultização nas redes sociais

No dia 7 de agosto deste ano, o criador de conteúdos brasileiro Felipe Breassamin Pereira, mais conhecido como Felca, publicou um vídeo de 50 minutos no YouTube que chocou a Internet. Nele, denunciou a exploração de menores constante que acontece debaixo dos nossos narizes todos os dias nas redes sociais. A publicação, de carácter sensível e, no mínimo, angustiante, acumulou 49,5 milhões de visualizações em apenas três semanas. Apesar de tudo o que escrevo aqui, nada substituirá a visualização do vídeo, que pode ser encontrado no canal de YouTube do Felca e que recomendo a todos, especialmente aos pais e/ou aos responsáveis por menores. Grande parte dele gira em torno do caso específico de Hytalo Santos, um dos mais chocantes no momento, mas, infelizmente, não o único. Do grupo organizado por Hytalo fazem parte vários menores de idade, tanto rapazes como raparigas, que são constantemente gravados, expostos e publicados nas redes sociais nos mais variados contextos: desde menor...

O Fantasma do Comunismo e o Perigo Real: A distorção que marca o debate político português

  Durante décadas, o debate político português tem sido condicionado pelo medo persistente de  um comunismo que nunca governou o país, ao mesmo tempo que minimiza sinais de erosão  democrática bem mais reais. Esta distorção histórica e política continua a moldar perceções,  discursos e prioridades nacionais, revelando fragilidades profundas na nossa cultura  democrática.  O debate político português continua marcado por uma assimetria que já perdura há  décadas. Medidas sociais ambiciosas e progressistas são rapidamente rotuladas de comunistas,  enquanto discursos iliberais e nostalgias autoritárias passam com frequência por normais ou  inofensivos. É como se o país continuasse a temer um fantasma que nunca o governou.  Tememos um comunismo que nunca existiu em Portugal e, ao mesmo tempo, convivemos  quase sem sobressalto com sombras autoritárias que marcaram a nossa história recente. Este  desequilíbrio não é apenas retórico. ...