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O Medo de Falhar Como Projeto Educativo

Diz-se frequentemente que a escola prepara os jovens para a vida. Mas basta observar a forma como o erro é tratado para perceber que essa afirmação é, no mínimo, ilusória. O sistema educativo não ensina a falhar, a recomeçar ou a ajustar caminhos. Ensina a evitar o erro a todo o custo. E esse medo não é acidental: é produzido, reforçado e normalizado. 

Desde cedo, os alunos aprendem que falhar tem consequências que ultrapassam a aprendizagem. Uma nota negativa não é apenas um sinal de dificuldade; torna-se um rótulo. Uma 

reprovação não é encarada como parte de um processo, mas como um atraso quase moral. Um ano fora do "percurso normal9 é tratado como desperdício. A mensagem é clara, mesmo quando não é dita em voz alta: errar compromete o teu valor. 

A escola organiza-se em torno da lógica do acerto. Programas extensos, avaliações constantes, médias que decidem futuros. Pouco importa como se chegou à resposta, o que se aprendeu no processo ou que dificuldades foram enfrentadas. Importa o resultado final. Este modelo não forma pensamento crítico nem autonomia; forma alunos treinados para cumprir e obedecer. O problema agrava-se quando o erro deixa de ser pedagógico e passa a ser 

social. O aluno que reprova é visto como menos capaz. O que muda de curso é tratado como indeciso. O que faz uma pausa é rotulado como preguiçoso ou perdido. Em vez de se analisar o sistema, individualiza-se o fracasso. A responsabilidade é sempre do jovem, nunca das estruturas. 

Este ambiente produz um tipo específico de estudante: cauteloso, ansioso e avesso ao risco. Jovens que escolhem cursos não por interesse ou vocação, mas por medo. Medo de desiludir a família, medo de "perder tempo", medo de ficar para trás. Aprende-se cedo que errar é perigoso, e mais tarde estranha- se que tantos adultos vivam presos a percursos que não escolheram conscientemente. 

Fala-se muito de mérito, mas raramente se fala de contexto. Nem todos partem do mesmo ponto, nem todos têm margem para falhar. Para alguns, errar significa apenas tentar de novo. Para outros, significa comprometer estabilidade financeira, estatuto social ou expectativas familiares. O sistema ignora estas diferenças, mas continua a exigir desempenho como se todos jogassem com as mesmas regras. 

O mais contraditório é que a própria vida adulta funciona de forma oposta ao que a escola ensina. Percursos profissionais raramente são lineares. Pessoas mudam de área, recomeçam, falham projetos, aprendem com erros. No entanto, os jovens chegam a essa fase sem ferramentas emocionais para lidar com a incerteza, porque foram educados num 

ambiente onde falhar era sinónimo de 

fracassar. 

Em vez de preparar para a adaptação, a escola prepara para a rigidez. Em vez de incentivar a experimentação, penaliza a tentativa. Em vez de ensinar resiliência, cultiva ansiedade. O discurso oficial fala de “aprendizagem ao longo da vida”, mas as práticas continuam presas a uma lógica punitiva e ultrapassada. 

Não se trata de romantizar o fracasso 

nem de defender a ausência de 

exigência. Trata-se de reconhecer que aprender implica errar e que um sistema que não tolera o erro não educa, condiciona. Um sistema que trata o desvio como falha pessoal não forma cidadãos críticos, forma indivíduos com medo de sair da linha. 

Se queremos jovens capazes de pensar, criar, inovar e assumir responsabilidade pelas suas escolhas, precisamos de um modelo educativo que normalize o erro como parte do processo. Isso exige mais do que discursos motivacionais ou reformas superficiais. Exige mudar a forma como avaliamos, acompanhamos e valorizamos os percursos. 

Enquanto falhar continuar a ser 

tratado como derrota, a escola 

continuará a formar jovens com medo, não cidadãos livres. 

 

Catarina Lelo


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