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O Fantasma do Comunismo e o Perigo Real: A distorção que marca o debate político português

 


Durante décadas, o debate político português tem sido condicionado pelo medo persistente de  um comunismo que nunca governou o país, ao mesmo tempo que minimiza sinais de erosão  democrática bem mais reais. Esta distorção histórica e política continua a moldar perceções,  discursos e prioridades nacionais, revelando fragilidades profundas na nossa cultura  democrática. 

O debate político português continua marcado por uma assimetria que já perdura há  décadas. Medidas sociais ambiciosas e progressistas são rapidamente rotuladas de comunistas,  enquanto discursos iliberais e nostalgias autoritárias passam com frequência por normais ou  inofensivos. É como se o país continuasse a temer um fantasma que nunca o governou.  Tememos um comunismo que nunca existiu em Portugal e, ao mesmo tempo, convivemos  quase sem sobressalto com sombras autoritárias que marcaram a nossa história recente. Este  desequilíbrio não é apenas retórico. É revelador de quanto a nossa cultura democrática ainda é  frágil. 

O medo do comunismo foi cuidadosamente construído pelo Estado Novo. Durante  48 anos, o anticomunismo serviu para justificar repressão, censura e vigilância política. Esse medo sobreviveu ao próprio regime e permanece hoje como reflexo quase automático. A  facilidade com que se aplica o rótulo de comunismo a propostas sociais ou a políticas  progressistas mostra como a narrativa autoritária se enraizou. E aqui a reflexão de Robert Dahl  torna-se essencial. 

Dahl recorda que a democracia depende de pluralidade informativa, de contestação  pública e de capacidade para distinguir alternativas políticas. A poliarquia, conceito central do  autor, descreve as democracias reais e assenta em dois pilares fundamentais a participação  inclusiva e a contestação pública. Quando estas condições se deterioram, a qualidade da  democracia enfraquece, mesmo que as instituições formais continuem de pé. Quando tudo é  reduzido a um único rótulo, perde-se precisamente a clareza que sustenta a escolha democrática. É essa confusão que fragiliza o debate. A social-democracia opera na lógica capitalista e procura  mitigar as desigualdades. A tradição do socialismo democrático, tal como descreve Michael  Thompson, pretende aprofundar a democracia por meio da interdependência social, da não  subordinação e da autorrealização. Já o comunismo histórico seguiu caminhos distintos,  frequentemente autoritários. Misturar tudo isto não é apenas incorreto, mas também  conveniente para quem prefere um debate baseado no medo e não na compreensão. 

Enquanto tememos um comunismo imaginário, relativizamos fenómenos bem mais  presentes. O autoritarismo português do século passado, distinto do fascismo histórico europeu,  continua a ser alvo de leituras indulgentes. E é precisamente nesta brecha que cresce a direita  radical populista. Ao exagerarmos o perigo de um comunismo inexistente, diminuímos a  atenção para os riscos reais de erosão democrática. A memória coletiva portuguesa tende a  suavizar o autoritarismo, tratando-o como um passado ordeiro ou paternalista, o que reduz a  sensibilidade pública perante discursos que recuperam ideias de autoridade, de homogeneidade  cultural e de punição. Esta complacência histórica cria espaço para que a direita radical  populista se apresente como uma força regeneradora, explorando inseguranças sociais e  culturais sem ser imediatamente reconhecida como ameaça à qualidade da democracia.

O Chega não replica o Estado Novo, mas existem elementos discursivos e estruturais  que evocam padrões típicos desse regime. O apelo à ordem, a idealização de um passado moral  e socialmente arrumado e a desconfiança profunda perante o pluralismo aproximam o partido  de lógicas autoritárias. No entanto, ao contrário do Estado Novo, que construía sobretudo  inimigos internos, a direita radical populista contemporânea direciona grande parte da sua  retórica para fora, identificando como ameaça os imigrantes e outros grupos considerados  externos à comunidade nacional. Esta divisão entre um povo puro e homogéneo e um outgroup considerado perigoso é uma das marcas centrais da gramática populista analisada por Pippa  Norris e Ronald Inglehart. 

Como demonstram estes autores, os movimentos populistas autoritários  contemporâneos não precisam de replicar regimes antigos para ameaçar a democracia. As suas  táticas são diferentes, mas os efeitos potenciais são semelhantes. A contestação sistemática das  instituições, a erosão da confiança pública, o ataque à imprensa livre e a construção de clivagens  morais rígidas corroem lentamente as normas fundamentais da democracia liberal. Este tipo de  erosão silenciosa representa o maior risco, pois se normaliza sem causar um choque imediato. 

A teoria do backlash cultural ajuda a compreender esta dinâmica. O populismo  autoritário emerge como reação às transformações culturais e sociais que parte da população  considera rápidas ou excessivas. Alimenta-se de ansiedade identitária, desconfiança em relação  às elites e ressentimento cultural. Portugal não é exceção. Basta observar como discursos sobre  autoridade, punição, ordem moral e pureza nacional regressam à esfera pública com uma  familiaridade que deveria inquietar-nos. 

A espetacularização da política, outro fenómeno sublinhado por Norris, contribui  para esta inversão de prioridades. A política transforma-se em espetáculo e os cidadãos tornam se espectadores. Num ambiente mediático fragmentado, triunfam as mensagens simplificadas  que apontam para fantasmas fáceis de reconhecer. Já as ameaças reais à qualidade da  democracia não desaparecem, mas tornam-se normalizadas. Surgem envoltas em linguagem  moralista ou antissistema e, por isso, não provocam a vigilância democrática que deveriam  gerar. 

Neste contexto torna-se evidente outra distorção do debate público. Em vez de  discutirmos a crise na saúde, a crise na habitação ou o risco de retrocessos laborais que ameaçam  direitos conquistados, gastamos tempo e energia política a debater cerimónias para o 25 de  novembro. A disputa simbólica em torno dessa data tornou-se um instrumento de mobilização  ideológica que reacende medos do passado e tenta reescrever a memória política nacional. O  25 de Novembro, que marcou o fim das tensões do PREC e a estabilização da democracia  constitucional, é hoje utilizado por setores da direita e da direita radical para alimentar a ideia  de que a democracia esteve ameaçada pelo comunismo e, implicitamente, de que essa ameaça  persiste. Esta deslocação do foco afasta a discussão de problemas concretos e reforça a política  do medo, um terreno fértil para estratégias que exploram ressentimentos em vez de procurarem  soluções. 

A investigação histórica de José Neves reforça a necessidade de olhar para o passado  com maior nuance. O comunismo português não foi monolítico e, em determinados momentos,  articulou-se com discursos nacionalistas, especialmente no combate ao autoritarismo e ao  colonialismo. Isto mostra que a política portuguesa é mais rica do que os rótulos que dominam  o debate atual.

O medo seletivo português ao fantasma do comunismo é, no fundo, um sintoma de  literacia política insuficiente. Democracias, lembra Dahl, podem degradar-se a partir de dentro  quando os cidadãos deixam de reconhecer ameaças reais. Norris acrescenta que sociedades com  pouca formação política tornam-se vulneráveis a discursos que manipulam o medo e a  insegurança. E é precisamente isso que vemos hoje. Enquanto o fantasma do comunismo  continua útil para manter um debate superficial, as verdadeiras sombras que ameaçam a  democracia ganham forma à luz do dia. 

Portugal não precisa de temer fantasmas. Precisa de compreender ideias. Só com  conhecimento, e não com medo, será possível enfrentar as sombras reais que desafiam a  democracia portuguesa.



Madalena Nunes
Licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais

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