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Nos tempos idos do outro Senhor

 Saudade. Esse fenómeno tão nacional e tão intenso, que mereceu, na língua de Camões, uma palavra que abarque, em três simples sílabas, a totalidade da força poética e prosaica de um sentimento tão difícil de definir. 

O povo português, que, muito embora, ao longo da sua extensa história, colecione tantos feitos dignos de nota que são verdadeiramente merecedores de nostalgia e que serviriam de exemplo para os igualar ou superar, tem o triste hábito de expressar a sua saudade relativamente a eventos passados que há muito deviam estar enterrados e consensualmente aceites como prejudiciais para o país, no geral, e para uma expressiva maioria dos seus habitantes, em particular. Muito embora respeite quem deseje, por genuína vontade, por malicioso interesse ou por desconhecimento da total envergadura do podridão que grassava, saudar tempos idos e bafientos, essas recordações com um travo a morte, a tristeza e à mais profunda miséria, não posso, em boa consciência, aceitar que se deturpe historicamente o período do Estado Novo, fazendo-o soar como se fosse um imenso mar de rosas destruído por atuação de traidores à Nação, para justificar o que, para quem utiliza factos para debater sinceramente a questão, não tem justificação cabível.

Essas vozes, cada vez mais nos dias que correm, que querem transparecer um mundo perfeito, sem mácula ou defeito, e que tecem, com cada vez mais ferocidade, as suas venenosas teias ao serviço de interesses próprios, ocultam os pormenores mais reveladores da natureza desse regime defunto, na tentativa de fazer esquecer, simulando que um Salazar por período histórico não só não basta, como se revela manifestamente insuficiente para dar resposta às necessidades imperiosas que nos assolam, e enterrando, de vez, o mundo democrático que há 50 anos construímos e que revela, como todas as democracias, a sua perfeita imperfeição e o seu sempre presente estado inacabado.

Mas as saudades de alguns continuam a ser muitas, saudades de um país orgulhosamente só, uma pária de um mundo democrático, que enviava, para defender um império uno de Minho a Timor, que apenas existia no papel e na mente de alguns, uma quantidade obscena de jovens para um matadouro tropical. Esse inferno na Terra de onde tantos voltavam em pedaços, estropiados, enlouquecidos, feridos ou mortos, vindos da África profunda em macas ou em caixões. Desse país que mandava para morrer os filhos dos que não tinham dinheiro nem contactos para fugir ao serviço militar obrigatório ou a um serviço militar confortável nos gabinetes de Lisboa.

Essas saudades não são mais que a nostalgia doente de uma justiça convertida em farsa, onde os tribunais funcionavam sem independência e por encomenda, onde as garantias de defesa eram ilusões e os tribunais plenários cruas realidades. Esse país onde as penas sucessivas se multiplicavam e onde os presos eram libertos para serem novamente encarcerados à porta das prisões por novos crimes, fossem reais ou fictícios.

São o anseio mal disfarçado pela PIDE em cada esquina deste Portugal vergado e submisso, onde se substituía a perigosa responsabilidade de pensar pela servidão escondida sob o manto da humildade e da pobreza, esse falso paraíso, onde vizinhos denunciavam vizinhos, onde a paranoia abundava e onde o medo era a banda sonora do cotidiano. 

Esse sentimento tão nobre é, assim, conspurcado pelas vozes que imploram o retorno a um país podre até aos ossos, onde se riscava a lápis azul tudo o que era perigoso e inconveniente e onde se perseguiam os intelectuais da nação, por se atreverem a expor a desgraça que se fazia calar.

Voltemos, dizem alguns, aos tempos de opositores exilados, torturados em calabouços ou assassinados na fronteira pelo simples ato de falar, esse país onde se enviava para morrer, no Tarrafal, os mais vocais e mais ativos na oposição ao regime. Regressemos aos ministros dóceis e sabujos, aos Presidentes “Corta-Fitas”, a um Parlamento sobre mordaça, onde se censurava quem se aventurava a por em causa o Estado e os seus superiores interesses. Exaltemos um homem funestamente sinistro e de ar sibilino que, desde S. Bento, promovia um culto de personalidade que beirava a histeria e, como que encarnando a própria Morte, proferia frios despachos onde, nas entrelinhas, se ia matando um país aos poucos.

Esqueçamos, gritam os saudosistas, as mulheres que falavam dos filhos mortos na infância como quem conta as contas de um rosário, os que fugiam a salto para França e as universidades fechadas à força, os estudantes e grevistas dispersos à bastonada e a cargas de cavalaria. Tenhamos saudades de uma corrupção “dita” inexistente, mas que era tão funda como o mar que nos banhava, em que se iam trocando favores e os grandes negócios do Estado como quem troca gado em leilão, de uma economia obsessivamente controlada e lacaia dos interesses dos donos disto tudo, impunes e intocáveis, onde tudo era decidido pelo Estado, com licenças que abundavam até para as coisas mais mundanas, crescendo sempre em solavancos. Não falemos da educação convertida em doutrinação, que louvava a obediência cega e a miséria como virtudes.

Deixemos de parte os sucessivos escândalos varridos para debaixo do tapete, como se nunca tivessem acontecido, o Ballet Rose, que mais não era que uma rede de pedófilos, que incluía ministros e os grandes da nação, convenientemente abafado. Louvemos, como hipócritas, os bairros de lata à porta das grandes cidades, a doença, a mortandade, a miséria, o analfabetismo, e um povo, vergado até a submissão, que encontrava na Igreja e na oração a única esperança de uma vida eterna melhor do que terrena, em que deixavam a carne aos farrapos.

Muito mais se podia dizer, mas direi somente isto: esquecer é atraiçoar aqueles que deram a vida, a voz, o sangue, o suor e as lágrimas por um país mais justo e mais democrático. Por muito que a democracia falhe em tantos pontos menores, derivados da natureza coletiva do esforço que nos move e das opiniões divergentes que se podem expressar abertamente, a verdade é que há algo que nunca podemos olvidar sobre ela: não é negociável. Alguns podem ter saudades, mas cabe a todos nós, tenhamos vivido os negros anos de ditadura ou não, zelar, com respeito, mas com uma firmeza sustentada pela realidade dos factos, por um país que, embora, por vezes, nos desiluda, é a mais aperfeiçoada versão de si mesma até hoje. Não agir é tolerar, tolerar é desistir e desistir é algo que nunca fizemos, nem mesmo nos tempos idos do outro senhor.


João Antunes


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