Desde o surgimento do século XX até aos dias atuais, a relação entre o Homem e a tecnologia tem sido marcada por um misto de fascínio, euforia e inquietação.
Na Ode Triunfal de Álvaro de Campos (um dos vários heterónimos de Fernando Pessoa), celebra-se de uma forma um tanto quanto profunda o aparecimento da modernidade industrial, exaltando tudo o que era desta época (máquinas, energia e velocidade) como se fosse símbolo do progresso máximo humano. Este entusiasmo febril reflete de forma admirável a atual sociedade contemporânea dominada por Inteligência Artificial, redes sociais e avanços estupendos no campo da tecnologia. A comparação entre a exaltação da máquina na Ode Triunfal e o encanto tecnológico da atualidade, abre portas para uma reflexão sobre os limites do progresso e a fragilidade da nossa identidade.
Nós, meros seres humanos, sentimos um grande entusiasmo por tudo aquilo que nos provoca picos de felicidade, viciando-nos. No entanto, o rápido avanço da causa desse nosso fascínio (tecnologia) não acompanha a capacidade humana de se adaptar ao mesmo, seja a nível emocional ou social.
No poema, Ode Triunfal é passível de se perceber o desejo que o Sujeito Poético tem de viver exacerbadamente estas novas emoções… estas novas inovações, mas quando a euforia cai por terra apercebe-se de que é quase impossível aproveitarmos tudo o que há de novo de uma só vez como se não houvesse amanhã. Pois mesmo fazendo os possíveis e os impossíveis para encontrarmos pontos positivos em algo negativo, chegando até a romantizar crimes (“A maravilhosa beleza das corrupções políticas, / Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos, /Agressões políticas nas ruas,”), chegaremos sempre à mesma conclusão de que tudo isto não passou de uma ilusão estonteante. Sinto que é, exatamente, isto que vai acontecer daqui a uns anos ao mundo atual, nós somos física e emocionalmente incapazes de nos adaptarmos ao deslumbramento desta geração tecnológica. Um mundo onde a procura por dopamina rápida e a procura por novas sensações anestesiantes só aumenta, é um mundo onde a ansiedade se intensifica no íntimo dos nossos corpos a cada segundo que passa. Claro que o uso da tecnologia não é, necessariamente, mau, porém a forma veloz com que a sua evolução se propaga e, a maneira como somos cada vez mais dependentes da mesma, isso sim é mau. Amar as inovações e este progresso vertiginoso, é como amar aquilo que nos domina, é
um amor doentio, aquilo que aparenta causar conforto e eficiência, na realidade causa um hábito indesejado e cíclico de certa forma.
Na Ode Triunfal, o Sujeito Poético deseja dissolver-se nas engrenagens e fundir-se naquilo que lhe cause regozijo, a máquina, afirmando “Eu podia morrer triturado por um motor/Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída.”. É, efetivamente, o inverso disto que acontece quando os algoritmos se adaptam aos nossos gostos, decisões e comportamentos de maneira a fazerem com que nos sintamos engaged e viciados nos seus conteúdos. O Sujeito Poético ao confessar “Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!”, mostra a evidente desilusão que sente ao perceber que a fusão entre o Homem e a Inovação é algo inconcretizável, tal como devia ser a perda de identidade perante um algoritmo.
Não obstante o facto da obra Ode Triunfal não abordar diretamente temas como a segurança ou a abdicação do eu. Atualmente, abdicamos de inúmeros dados pessoais e privacidade através das famosas Cookies em nome da segurança. No entanto, pode-se comparar o facto de na Ode Triunfal existir o desejo de entrega total à máquina com a entrega, por parte da população atual, de “partes de si” à tecnologia.
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